Saturday, December 18, 2010

Da série UTI sob todas as perspectivas



A UTI não era tão fria e nem tão cinzenta. Os médicos conversavam e, às vezes, riam, como se não morresse gente de verdade ali. Os enfermeiros combinavam de sair, passar no barzinho logo ali,tomar uma breja eles diziam, como se não moresse gente de verdade ali. Quando chegava no andar da UTI, a moça do elevador que apertava os botões dizia com simpatia: "Nono andar" como se não morresse gente de verdade ali.

"Quer ir tomar um café na cantina?" um efermeiro me dizia todo dia, como se a morte dos outros tivesse intervalo e enquanto isso, os familiares pudessem tomar um cappucino ou um mocacchino e discutir se votar na Dilma é o mesmo que votar no Lula.

Eles eram todas ótimas pessoas, mas estavam cansados com a morte dos outros que ficavam morrendo ali todo o dia. "Por favor,minha sonda está incomodando" "Ah,fulaninho,seu safadinho,essa sonda de novo.." eles brincavam com os pacientes, tentando se aproximar sem sentir a dor deles. Mitigando-a com piadas de bar que, em última instância, levavam a total indiferença em relação ao estado dos pacientes.

Uma vez entrei distraída e olhei sem querer para um dos leitos por mais uns segundos. Ouvi uma voz mais doce do que a minha própria voz,mas era de uma menina adulta : "Moça,me ajuda...por favor,me ajuda.."

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